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CRÔNICA MOLE | SOLO| GALERIA LUME

Crônica Mole by Mariana Leme

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Na entrada da galeria, uma pintura de fundo esverdeado recebe os visitantes. Ela é estruturada por uma forma oval, algo vacilante, da qual se desprendem dois “sacos” marrons, vazados. Na parte superior, alguns elementos em forma de meia-lua, mais opacos, parecem lhe dar sustentação. Mas as tintas escorrem, criando uma atmosfera aquática, em que as formas negociam sua coexistência.

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Ao seu lado, duas pequenas pinturas lembram sementes ou bagos: seres-bolsas à espera de germinar novas formas de vida. Uma das “sementes”, dentada e brilhante, parece também flutuar numa atmosfera líquida, sem que tenha um destino predeterminado. A segunda é uma forma composta por vários círculos — ou sacos — sobrepostos, com filamentos coloridos que dela se desprendem, como se fossem tentáculos que fizeram com que aquele “ser” se deslocasse do centro da tela.

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Nas obras de Renata Egreja não existe síntese, ou seja, uma resolução inequívoca dos elementos que as compõem; eles estão sempre em negociação, em movimento. Não numa harmonia orquestrada (por alguém que se sobressai), mas como uma abundância de seres que se combinam, se repelem, se misturam e se transformam, às vezes absorvendo uns aos outros.

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Nos termos da escritora Ursula K. Le Guin,as pinturas de Egreja já não contam a estória de um Herói, mas da própria vida que acontece, em movimento incessante; mole como a “bolsa da ficção”:todos nós já ouvimos tudo sobre todos os paus e lanças e espadas, sobre as coisas para

esmagar e espetar e bater, as longas coisas duras, mas ainda não ouvimos nada sobre a coisa em que se põem coisas dentro, sobre o recipiente para a coisa recebida. Essa é uma estória nova. […] E, no entanto, antiga.

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Antiga porque, segundo a autora, a estória da bolsa é a própria estória da humanidade, contrária àquela do assassino-herói que, ao se estabelecer no imaginário comum, acabou por esconder dela (e de nós) o senso de pertencimento. Pesquisas arqueológicas estabeleceram que, para “manter a barriga cheia”, a humanidade ocupou- se de coletar “sementes, raízes, brotos, rebentos, folhas, nozes, bagas, frutos e grãos, além de insetos e moluscos, assim como capturar aves, peixes, ratos, coelhos e outros pequenos animais […]”. E depositaram-nos em bolsas, sacos ou trouxas, a fim de guardar um pouco de energia para depois. Le Guin afirma também que “a pessoa pré-histórica mediana podia viver bem com cerca de quinze horas de trabalho semanal”, o que, conclui, “deixa bastante tempo para outras coisas” — como nadar no rio, inventar uma música, dormir, desenhar, enfeitar os cabelos, observar o céu.

 

Em duas pinturas de Egreja, um amarelo brilhante irradia para além da tela e faz brotar plantas--invólucros, que podem ser flores mas também sementes. Em Peregrina, a maior obra da exposição, Renata Egreja: uma crônica mole dois grandes elementos, transparentes e “moles” parecem se movimentar, junto de outro, mais fino, que flutua. Atrás deles, há uma mistura intensa de amarelos, vermelhos e rosas, além de grãos de purpurina brilhante. A diluição faz com que os pigmentos se contaminem uns aos outros, criando passagens cromáticas desenhadas pela água. É como se a estória, ou a crônica de um acontecimento banal, jamais se fechasse em contornos sólidos.

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Em outra pintura, predominantemente cor-de-rosa, há um recipiente em formato de gota, que contém cinco outros “seres” — impossível decidir se são parasitas ou aliados numa relação simbiótica. Atrás do recipiente, e às vezes sobreposta, está uma “grade” colorida, que não se fecha,

elemento recorrente nas obras de Egreja. Santa Tereza, obra iniciada anos atrás, foi coberta agora por tons escuros, deixando a silhueta de um elemento vazado que lembra um galho com folhas.

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Mas permanecem resquícios de bolas, bagos, meias-luas e “grades”, como que vivendo num mundo subterrâneo. Uma série de aquarelas recentes figuram outros seres, que também negociam seu lugar em composições excêntricas, isto é, descentralizadas, como numa dança. Vasos e potes de cerâmica também contêm pinturas e o potencial acolhimento de uma infinidade de coisas: sementes, líquidos, pedras, pigmentos, frutas. São recipientes que, nas palavras de Le Guin, contêm a possibilidade de se escrever novas estórias, cheias “de começos sem fim, de iniciações, de perdas, de transformações e traduções, e muito mais artimanhas do que conflitos, muito menos triunfos do que armadilhas e delírios”.

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Mas não se trata da nostalgia de um lugar bucólico. Algumas palavras soltas, desenhadas nas cerâmicas, fazem lembrar da equivalência cultural moderna entre a exploração do território e os corpos percebidos como femininos. O “ventre” da terra “fértil” foram apropriados pelo capital e, de acordo com as estórias dos “paus e lanças e espadas”, estariam inertes, disponíveis ao desejo do herói-colonizador. E este último, em seu percurso, acaba por aniquilar uma extraordinária diversidade de seres e de relações — não sem resistência.

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Se a vida não é útil, como disse Ailton Krenak, tampouco ela é dócil. As crônicas moles materializadas por Egreja não são a fabulação de um ideal totalizante: trata-se da própria vida que acontece, instável, movediça. Que traz em si a potência da transformação, inclusive a de fazer apodrecer todos aqueles que imaginavam outros seres como “disponíveis”. Assim, os nutrientes espoliados se renovam, e podem germinar um sem-fim de sementes, bagos, terras, frutos e, por que não?, estórias.

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As citações de Ursula K. Le Guin foram retiradas do ensaio “A teoria da bolsa da ficção”. São Paulo: n-1, 2021.

Tradução de Luciana Chieregati e Vivian Chieregati Costa. A versão original, “The Carrier Bag Theory of Fiction”, foi

publicada nos Estados Unidos em 1986.

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